Não sei se é sede ou fome. Digo, apenas, que é vontade de ti.
Como folha desprendida do ramo pelo vento agreste que sopra forte. Observo a sua luta por voltar ao galho de onde se soltou. Contra vontade. Contra os sopros que a arrastam. Ela teima. Resiste. Depois vai. Entrega-se. Rodopia. Balouça nas revoadas de ar. Talvez grite. Na linguagem muda da seiva que ainda corre nos veios. Grita por voltar ao seu ramo, à sua árvore. Ao aconchego dos braços de onde partiu.
Fico a olhá-la. Absorvo-a com o olhar, como te absorvo a ti quando te olho. Com infinita ternura. Com a saudade das gentes ausentes e a saudades das que ficam e não partiram. Não sei se foi ela a partir ou se fui eu a ficar. Se foi o ramo que a perdeu, ou o vento que a levou. Sei que já não está na ponta do ramo, da árvore que continua de pé.
Por fim, moribunda agarra-se ao chão, perto da sua árvore. Ainda vê os contornos fortes das suas raízes. Depois, pouco a pouco vai morrendo no tempo que passa sem se deter. Chegam as primeiras chuvas de Outono e os primeiros frios do Inverno. O chão arrefecido vai ficando gelado. E ela vai morrendo um pouco mais. Até que se mistura na terra negra que a envolve. Resta-lhe um sopro de vontade. De vontade de ti. Então infiltra-se lentamente naquele chão que é a tua vida. E tu, tens fome e sede. Da folha que partiu. Do lugar preenchido por aquele pedaço verde, palpitante de vida. A tua seiva era a seiva dela.
Pouco a pouco, atinge uma das tuas raízes. Faz-se alimento para que vivas. Corre por ti. No interior de ti. Inunda-te. Fortalece-te. E tu árvore, sem que o saibas vives porque ela morreu. E ela, a folha moribunda renasce porque tu precisas que viva. Renasce no mesmo ramo, no mesmo galho frágil e sorri feliz. Volta a ser um pedaço verde que te acarinha. Ela que tem vontade de ti. Tu que tens vontade dela. E unidos, ligados por estranhos laços, a folha sabe que fazer parte de ti é a sua propria vida. Até que um temporal inesperado de Verão a arraste do teu pedaço de chão, ou uma brisa suave a inebrie com promessas de fugas arrojadas.
O encontro e o desencontro da folha que se soltou da árvore. A vontade e o desejo entre dois olhares que se trocam. Dois mundos. Dois corações. Mil sonhos. Diferentes. Iguais. Os troncos fortes que são teus, as folhas frágeis que são minhas.
Caminhamos lado a lado, por este caminho de folhas soltas. Aqui e ali, sem querer, em gestos espontâneos as mãos tocam-se. Os olhares cruzam-se. Breves instantes de comunhão. Eu e tu. Neste chão coberto de folhas que morrem à espera de viver.
É assim a vontade, a minha vontade de ti. Saberás?
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.
Outras Vidas
Meus Blogues
Sítios diversos
AVIEIROS